21/04/2011

Cinematic


O menestrel que roda meus sonhos é esquizofrênico e meio cego: a esquizofrenia é de outras vidas, a miopia é fator determinante (no processo de afetação doei esse dom pra quem decupasse minhas experiências oníricas). É adicto por Ritalina 10mg e curte tomar strawberry tea em xícaras de porcelana japonesa ao longo da sessão full script. tem problemas no sistema urinário, usa chapéu para preservar seu olhar opaco (diante do mundo), fuma cachimbos, controla a intensidade da aflição no plano detalhe. seus dedos seguram uma lanterna para os possíveis blecautes no circuito de uma noite tipicamente proustiana. tem Bergman como mentor. sua excitação consiste em espelhar o enredo nas linguagens corporais; calafrios, chutes, tosse, tudo que afeta o corpo, desde voar até tropeçar em metáforas cotidianas banais (escadas). Ele tem apego à trilhas emotivas, embora se envolva com o sonoro (reverbero de suas insuficiências visuais) desconhece o conceito de alteridade. é piegas no fechamento, nunca abandona o fade out.


18/04/2011

Patti Smith

têm me inspirado nos últimos dias. Alguns livros chegam em nossas mãos como milagres que caem do céu. Comecei a ler Só Garotos no café do aeroporto, estava adiantada 2 horas, pedi um capuccino duplo e sentei ao lado de uma mesa com um executivo meia boca que tomava choop enquanto esperava a hora do check in.
A tempos passei a ligar menos para o visual, comecei a vestir humor, ainda assim tenho minhas roupas prediletas (que sabem o dia certo de sair do armário). Não costumo usar maquilagem de dia, só filtro. os óculos disfarçam as olheiras, o oculista proibiu qualquer mack-up devido a uma hipersensibilidade na vista, minhas bochechas são naturalmente rosadas e ainda não tenho rugas nem manchas para esconder.
Passei do Prefácio para Filhos da Segunda Feira e fui lendo... virava as páginas como se engolisse o choro de quem é tocado na alma. Por um momento abracei o livro e resgatei o meu amor pela textura do papel e toda aquela sintonia maluca junto do burburinho de aviões que decolavam dentro de mim.
No aeroporto as pessoas se comportam muitíssimo bem, aparentam estar em dia com as contas e com os afetos. Um dos pseudos executivos que está na mesa ao lado não disfarçou para o verde da minha tatuagem (assim como crianças de 6 anos apontam com os olhos grandes).
Patti entenderia meu deslocamento beatnik no aeroporto da pampulha. Ninguém consegue entrar na sala de embarque sem antes analisar o visual excêntrico acompanhado de uma pena de pavão no braço branco da menina que lê Só Garotos.