27/02/2012

Amém a quem

Levei 22 anos para desencontrar Jesus. E preciso descrever essa libertação sem parecer niilista, pessimista ou pagã; embora tenhamos um pedaço dessas três palavras dentro do sangue que ferve na cabeça nos instantes que antecedem o ato de dormir. Eu procurei Deus pra entender da minha insônia crônica e a descoberta foi assustadora: perdi o senso de direção e abalei profundamente a minha segurança ontológica. Era como se (numa metáfora bem simples) o “meu muro de Berlin” tivesse desmoronado, bem na fronteira do Canadá com os Estados Unidos.
Eu que por anos me interessei por coisas esotéricas, vidas passadas, horóscopo e aquela sequência interminável de blablasofia que convence grande parte de homens e mulheres que possuem uma sede interminável de inventar sentido para as varias faltas que não desaparecem. Não ter não e um sintoma depressivo, embora muitos "diagnósticos domésticos" insistam nessa tecla. Digamos que mesmo com todos os problemas da qualidade do ensino médio, estudamos Historia, e sabemos da sujeira da igreja católica no mundo, com aquele slogan patético "Em nome de Deus".
Como estudante de Propaganda e futura publicitária não praticante, relembro das remotas funções do negocio: propagar as ideias cristas, e hoje, depois de anos luz, Marx, é e será incansavelmente citado na transformação do ser humano em mercadoria. Dois mecanismos diferentes (religião e mercado) operados pela mesma maquina (que trabalha o fetichismo em seu domínio marxista ou freudiano).
Criar sentido pra vida é uma tarefa vasta, individual e precária. Esses 22 cômodos anos foram importantes. Tarefa mais importante agora e ter clareza que sou responsável por tudo que faço e não adianta transferir a culpa pros pais, pros amigos, Deus ou para o sistema capetalista. Cansei de frequentar pseudo médiuns picaretas que traçam a vida passada em cima da sua aflição especifica, na busca de um sentido confortável. Bolas de cristal, búzios, taro, todos nos queremos ser feliz no amor e ter o mínimo de dinheiro que nos permita participar da classe merdia.
Quem já teve a oportunidade de fazer regressão espiritual e notou que as historias são muito encantadas? Uma vez disseram que fui a Rainha do Egito, outra hora uma aristocrata Alemã e ainda aproveitaram pra dizer "essa sua pele clara é um traço da sua outra vida". Modéstia parte, tenho que assumir o meu trágico estado de fragilidade e ingenuidade pra ter chegado a tal ponto. Eu estava na beira da vala, mas o cérebro ainda questionava ironicamente se existia reencarnação na Somália, ou na Estônia, ou o repertorio da vidente de uma figa era restrito demais para satisfazer a minha imaginação fértil e exigente.
Das balelas que já escutei a que mais mexeu com as emoções foi escutar que meu avo falecido Paulo esta sempre do meu lado. Uma maneira romântica de não abandonar a memória daqueles que amamos. Foi pesado discordar de tudo que foi condicionado. Frequentei muito centro espírita e só não bitolei porque meu lema sempre foi escutar o que vem de dentro e fazer o que quero. No Brasil derrepente, não mais que derrepente, os católicos praticantes e não praticantes viraram espíritas de carteirinha. E vendem-se livros, filmes, Allan Kardec, Chico Xavier. Antes a gente ia para o céu, o que deveria ser um alivio, por exemplo, pra quem viveu durante a guerra do Vietnã, ou pra quem mora na rua. Agora vamos para outro plano, novamente criando encantos para o vazio escuro: A morte. Morrer não dói. A morte é ruim pra quem fica vivo e precisa lidar com a falta.

2 comentários:

  1. amém ao léu, leão, leoa (por algum acaso, caí aqui, uma saudade)

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  2. Seu texto vem de dentro... e pra mim, sem querer ser possuidora da verdade ou querer te convencer do contrário, possui sim uma energia divina. O divino é ser gente, é descobrir o mundo, é questionar e você questiona. Quanto a mim, tenho uma crença, acredito mesmo nela e isto é uma questão de fé... mas isso pouco importa, o que é realmente importante é este movimento, o que nos move a sermos melhores conosco e com o outro, e vamos seguindo. Parabéns pelo texto. Beijos. Tati

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