20/10/2012

Correnteza



João era comum. Levava a vida como um rio, deixava correr, era jovem, era como ter uma perna maior que a outra: não dava pra montar no cavalo e seguir com as  próprias rédeas (ainda). Trabalhava no escritório do tio, morava com a mãe, seu pai havia morrido (e o luto também). Gostava de futebol, cerveja, mulher, baralho, amigos, MPB. Não conhecia  deus (mas sabia que ele tava lá na hora do aperto), das vezes que sofreu nem chegou a pensar em cristo, chorou duas semanas durante o término com Marina (a grande mágoa) mas não se deixou levar nenhuma vez por dores enlouquecedoras. Era contido. Sensato. Adulto (quase). O pai morrera em estado terminal, fora um alívio (o velho foi descansar em paz). Já Marina... jazia nos pensamentos (quantos!) aos mares da mágoa (rasa); era só beber que passava. Passava uma mulher com pernas bonitas, alguma moça do bar amarrava o cabelo e esticava os braços. Mais uma rodada de chopp. E os olhos se atreviam nas mulheres, chegar perto, puxar papo (e era bom nisso) aceita um drink? e não ficava sozinho, afinal, quem quer ficar sozinho fica em casa. Hein lá em casa. Saideira? Carro corredor cama calcinha... fechava os olhos e via sempre um mar escuro... Tinha ondas... Grandes até... Mas não tinha A maré. João era normal. O único fim decente pra ele era o fim de semana.