20/10/2012

Correnteza



João era comum. Levava a vida como um rio, deixava correr, era jovem, era como ter uma perna maior que a outra: não dava pra montar no cavalo e seguir com as  próprias rédeas (ainda). Trabalhava no escritório do tio, morava com a mãe, seu pai havia morrido (e o luto também). Gostava de futebol, cerveja, mulher, baralho, amigos, MPB. Não conhecia  deus (mas sabia que ele tava lá na hora do aperto), das vezes que sofreu nem chegou a pensar em cristo, chorou duas semanas durante o término com Marina (a grande mágoa) mas não se deixou levar nenhuma vez por dores enlouquecedoras. Era contido. Sensato. Adulto (quase). O pai morrera em estado terminal, fora um alívio (o velho foi descansar em paz). Já Marina... jazia nos pensamentos (quantos!) aos mares da mágoa (rasa); era só beber que passava. Passava uma mulher com pernas bonitas, alguma moça do bar amarrava o cabelo e esticava os braços. Mais uma rodada de chopp. E os olhos se atreviam nas mulheres, chegar perto, puxar papo (e era bom nisso) aceita um drink? e não ficava sozinho, afinal, quem quer ficar sozinho fica em casa. Hein lá em casa. Saideira? Carro corredor cama calcinha... fechava os olhos e via sempre um mar escuro... Tinha ondas... Grandes até... Mas não tinha A maré. João era normal. O único fim decente pra ele era o fim de semana.

05/09/2012

A sacanagem da língua.

De um modo geral incluindo os enrustidos, duvido que alguém não curta uma sacanagem. Não importa os níveis de simpatia com a parada. Alguns arregalam os olhos e seguem discretos, mudos e surdos; outros também arregalam os olhos mas engolem um gostinho de curiosidade. Eu não tô falando de Nelson Rodrigues, embora ele seja o rei de paus da sacanagem. Pensei na discrepância entre um substantivo comum e um adjetivo. Uma coisa é gostar de sacanagem, outra coisa é ser sacana. Digamos que cada um de nos já é dotado de um percentual reativo de egoísmo (natural do ser, do eu). Na minha cabeça uma pessoa sacana gosta de fomentar o caos alheio, a grosso modo goza ao foder com outro(s): engraçado como a palavra se contorce numa questão de gênero; impossível não encorporá-la sem associar com sexo, palavras machistas ou sou eu metendo a linguagem sem vergonha?

12/05/2012



Eu Toronto
Abril em Paris
janeiro em Salvador
dezembro no Redentor
Eu Buenos Aires
Cubas Libres
URSS
Boipeba
Eu Chile lounge
Amsterdam
Eu Paquistão
Eu Turquia
Tiradentes
Assis
Eu Trancoso
Praga
Floripo me mucho
Picton
Barcelona -me
Miame
no Brasil

27/02/2012

Amém a quem

Levei 22 anos para desencontrar Jesus. E preciso descrever essa libertação sem parecer niilista, pessimista ou pagã; embora tenhamos um pedaço dessas três palavras dentro do sangue que ferve na cabeça nos instantes que antecedem o ato de dormir. Eu procurei Deus pra entender da minha insônia crônica e a descoberta foi assustadora: perdi o senso de direção e abalei profundamente a minha segurança ontológica. Era como se (numa metáfora bem simples) o “meu muro de Berlin” tivesse desmoronado, bem na fronteira do Canadá com os Estados Unidos.
Eu que por anos me interessei por coisas esotéricas, vidas passadas, horóscopo e aquela sequência interminável de blablasofia que convence grande parte de homens e mulheres que possuem uma sede interminável de inventar sentido para as varias faltas que não desaparecem. Não ter não e um sintoma depressivo, embora muitos "diagnósticos domésticos" insistam nessa tecla. Digamos que mesmo com todos os problemas da qualidade do ensino médio, estudamos Historia, e sabemos da sujeira da igreja católica no mundo, com aquele slogan patético "Em nome de Deus".
Como estudante de Propaganda e futura publicitária não praticante, relembro das remotas funções do negocio: propagar as ideias cristas, e hoje, depois de anos luz, Marx, é e será incansavelmente citado na transformação do ser humano em mercadoria. Dois mecanismos diferentes (religião e mercado) operados pela mesma maquina (que trabalha o fetichismo em seu domínio marxista ou freudiano).
Criar sentido pra vida é uma tarefa vasta, individual e precária. Esses 22 cômodos anos foram importantes. Tarefa mais importante agora e ter clareza que sou responsável por tudo que faço e não adianta transferir a culpa pros pais, pros amigos, Deus ou para o sistema capetalista. Cansei de frequentar pseudo médiuns picaretas que traçam a vida passada em cima da sua aflição especifica, na busca de um sentido confortável. Bolas de cristal, búzios, taro, todos nos queremos ser feliz no amor e ter o mínimo de dinheiro que nos permita participar da classe merdia.
Quem já teve a oportunidade de fazer regressão espiritual e notou que as historias são muito encantadas? Uma vez disseram que fui a Rainha do Egito, outra hora uma aristocrata Alemã e ainda aproveitaram pra dizer "essa sua pele clara é um traço da sua outra vida". Modéstia parte, tenho que assumir o meu trágico estado de fragilidade e ingenuidade pra ter chegado a tal ponto. Eu estava na beira da vala, mas o cérebro ainda questionava ironicamente se existia reencarnação na Somália, ou na Estônia, ou o repertorio da vidente de uma figa era restrito demais para satisfazer a minha imaginação fértil e exigente.
Das balelas que já escutei a que mais mexeu com as emoções foi escutar que meu avo falecido Paulo esta sempre do meu lado. Uma maneira romântica de não abandonar a memória daqueles que amamos. Foi pesado discordar de tudo que foi condicionado. Frequentei muito centro espírita e só não bitolei porque meu lema sempre foi escutar o que vem de dentro e fazer o que quero. No Brasil derrepente, não mais que derrepente, os católicos praticantes e não praticantes viraram espíritas de carteirinha. E vendem-se livros, filmes, Allan Kardec, Chico Xavier. Antes a gente ia para o céu, o que deveria ser um alivio, por exemplo, pra quem viveu durante a guerra do Vietnã, ou pra quem mora na rua. Agora vamos para outro plano, novamente criando encantos para o vazio escuro: A morte. Morrer não dói. A morte é ruim pra quem fica vivo e precisa lidar com a falta.

20/01/2012

A culpa é fiel

Esqueceu da camisinha? (foi o álcool) confortável estar bêbado. O time perdeu? Jogo comprado! Gostoso torcer pra quem ganha. Enchente? É o aquecimento global, fácil acreditar em uma natureza vingativa. Fiasco de noite? A música era ruim (as pessoas também). A comida desceu mal, a cozinheira errou na mão, simples matar a fome (sem acabar com ela) ingerindo gordura trans. Atrasou no trabalho? Foi o trânsito e mais 15 minutos de preguiça na cama, tão bom culpar o trânsito. O dinheiro sumiu? Foi a empregada! Dinheiro é papel e papel voa! O namoro acabou? Ah, a rotina... acaba com tudo antes que dure para sempre. Usa drogas? Influência dos amigos! Virou gay? amigos! Nariz e bunda cada um sabe onde por, você sabe! Foi roubado? Falta de sorte, se sal grosso funcionasse moraríamos no mar. Bebe demais? Genética! Os pais não são heróis; heróis não existem mas a palavra é bonita, heroica. Não consegue ser feliz? É impressão minha ou só os outros encontram a felicidade? Dizem que ela vem com o tempo, quando se alcança o sucesso, encontra-se o amor, ou vem depois dos filhos e se não chegar até lá, pede pra Deus. Durante séculos a humanidade apostou no nome dele, antes íamos para céu. Mas existem outros planetas (que regem signos?) e já estamos (quase) suspensos no ar, caem coisas do céu e caem filosofias. Não existe inferno, aqui já faz calor, o pecado mora ao lado, cada um com seu cu e sua culpa (sílabas repletas de preconceitos): quem tem cu sente culpa.


14/08/2011

refrão

Sempre tive fascinacao por homens que sobem em palcos com instrumentos (nunca fui de palco nem de platéia). Por muito tempo o "critério" era so me interessar por guitarristas e deixei quase todos me pisarem como se eu fosse o ua-ua. As coisas mudaram mas a admiracao perdura; nao é preciso ler Freud para entender que estabelecemos "critérios" a partir daquilo que somos (ou gostariamos) de ser. Nesse sabado assisti uma banda de rock em um bar muito cool: 4 integrantes, o baixista de sweet sixteen tocava e cantava confiante ao mesmo tempo shy (eu queria ter um filho como ele). A banda foi instalada no balcao, cervejas circulavam entre pés e pedaleiras... descobrimos depois da segunda metade do show que eles eram irmaos, a mae e o pai estavam la com os olhos cheios de prestigio. Pensei como deve ser gastar o decimo terceiro contruindo um estudio dentro de casa, comprar/manter instrumentos, cordas, varias extensoes pelos corredores, mae cade a palheta que eu deixei aqui? o inicio de tudo, os cansativos acordes de come as you are até um super riff do Hendrix, as blusas de rock, os all stars surrados, meias brancas e pretas.
Os pais projetam sonhos nos filhos, as vezes isso é cruel, as vezes nao; alguns sabiamente tentam nao cometer os mesmos erros que os pais, outros cometem por tradicao ou displicencia? Quando vi o menino do baixo projetei nele o meu desejo de ser mae de um menino que gosta de musica e tira notas ruins (como eram as minhas), nao precisa ter problema de disciplina, senao vai apanhar, pode ser distraido, pode ter todos os meus defeitos, eu vou amar. Enfim, quem é Edipo diante da eternidade? E as projecoes dos pais e baquetas e palhetas?

11/08/2011

tentei dar a mão


mas só pude dar adeus
in nomine patris
em nome do azar
todos os bons e péssimos instantes
que escorrem escor
regam e quebram
como um copo
com pedras de gelo;
gelos que não derretem.

18/06/2011



Flauta Transversal: Suéllen Campos
Direção e Roteiro: Paula Assis
Assistente de Direção: Daniel Lemos
Assistente de Produção: Rafael Rosa

05/06/2011

The Owl

Fie! The handsome owl’s
Incessant speech, sick of soul
Stifles thought, prevents prayer
For every hour stars appear.
All last night I heard her weep
A sore lament to banish sleep.
A roost of bats her shelter
From rain and snow. I shudder
Each night, to hear her charm –
A chink of pennies – meaning harm.
Chieftains my eyelids: to obey
And close them, defeats me until day.
I lie awake, with fluttering heart
And wait for her to screech or hoot ,
Laugh or cry. My heart is wrung.
A pittance from false poet’s tongue.

Wretched zeal till break of day
Bids her groan till dawn grows grey.
I writhe tormented, wretched song –
‘Hw-ddy-hw’ – the whole night long.
She winds her horn to harry, haunt
And taunt the hounds of the Wild Hunt .
Dirty, shitten, with raucous throat,
Sharp as shards her baleful shout,
Berry-bellied, broad of brow,
Mouse devourer, ogling, brown,
Scheming, slatternly, dun and dull,
A shrivelled shriek from a domed skull
Throughout ten forests spilling fright,
Roebuck’s fetter, voice of night.
To ape a man’s, her flattened face,
Fiend of fowls, her form a farce .
No unclean bird would venture nigh
If once it heard her harping cry.

Philomel speaks less by day
Than she, who gossips night away.
When daylight comes, warmth to follow,
She sticks her head into a hollow.
The bird of Gwyn ap Nudd, her shriek
Bids hounds of Annwn not to shirk.
Lunatic owl! To robbers sing!
A curse upon your tongue and wing!

This song and spell I make, to scare
The owl who lurks within her lair.
Though frost is falling, I conspire
To fill each ivied hole with fire.


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paraphrased by Giles Watson.


21/04/2011

Cinematic


O menestrel que roda meus sonhos é esquizofrênico e meio cego: a esquizofrenia é de outras vidas, a miopia é fator determinante (no processo de afetação doei esse dom pra quem decupasse minhas experiências oníricas). É adicto por Ritalina 10mg e curte tomar strawberry tea em xícaras de porcelana japonesa ao longo da sessão full script. tem problemas no sistema urinário, usa chapéu para preservar seu olhar opaco (diante do mundo), fuma cachimbos, controla a intensidade da aflição no plano detalhe. seus dedos seguram uma lanterna para os possíveis blecautes no circuito de uma noite tipicamente proustiana. tem Bergman como mentor. sua excitação consiste em espelhar o enredo nas linguagens corporais; calafrios, chutes, tosse, tudo que afeta o corpo, desde voar até tropeçar em metáforas cotidianas banais (escadas). Ele tem apego à trilhas emotivas, embora se envolva com o sonoro (reverbero de suas insuficiências visuais) desconhece o conceito de alteridade. é piegas no fechamento, nunca abandona o fade out.